Desaceleração em serviços ameaça emprego


A receita real do setor de serviços prestados às famílias caiu no segundo semestre do ano passado e esse movimento pode afetar o emprego, e posteriormente a inflação, em 2015, além do próprio resultado do Produto Interno Bruto (PIB). De julho a dezembro, o faturamento desse segmento subiu apenas 7% em relação a igual período do ano anterior, enquanto a inflação de serviços medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) manteve alta superior a 8% nessa comparação. Embora a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) seja recente (ela é de 2013) é a primeira vez que ela sugere uma evolução inferior a dos preços do setor por um período longo de tempo.

Esse resultado mais fraco das atividades para as famílias no segundo semestre já estava presente desde o começo do ano nos setores que atendem às empresas e que agregam mais valor à produção e para outras atividades, como o segmento de tecnologia da informação. Nesse, por exemplo, a desaceleração ficou ainda mais profunda e a receita nominal cresceu apenas 0,6% sobre o segundo semestre do ano passado.

No ano, que ainda carrega o bom desempenho do segmento no primeiro semestre (alta de 12% sobre os primeiros seis meses de 2013), a receita dos serviços prestados às famílias subiu 9,2% para um IPCA de 8,3% para o conjunto dos serviços. Mas essa diferença foi bem maior em 2013. O IBGE ainda não divulga uma série em volume (sem inflação) para a demanda por serviços, mas o IPCA é considerado um bom deflator para a pesquisa e tem sido usado pela própria instituição para deflacionar os dados de parte do setor de serviços no cálculo do PIB.

José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do banco Fator, lembra que a pesquisa mensal de serviços do IBGE reflete uma relação entre quantidade (cortes de cabelo, conserto de automóveis, refeições fora de casa, etc) e preço. Na sua avaliação, a quantidade será afetada primeiro, pois as famílias já estão com o orçamento apertado e cortarão parte dessas despesas. A moderação de reajustes (ou até queda) virá depois, como consequência dessa retração na demanda. Por isso, ele espera um efeito negativo sobre o emprego primeiro e um posterior (e menos intenso) efeito sobre os índices de inflação.

Com ressalvas pela diferença nas atividades consideradas, o Fator fez um exercício para deflacionar a pesquisa de serviços a partir dos dados do IPCA. Se no setor de serviços às famílias, o resultado ainda mostrou um pequeno ganho de 0,6% no ano (metade da alta de 1,5% registrada em 2013), o conjunto do setor de serviços registrou queda real de 2,3% em 2014, após estabilidade no ano anterior.

“A desaceleração de serviços, puxada pelo segmento das famílias, reforça o quadro de atividade fraca”, diz Gonçalves, que avalia que o PIB caiu 0,1% no ano passado e projeta retração de 1,5% em 2015 com racionamento.

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) já vem mostrando perda de fôlego do setor de serviços, pondera o economista do Fator. Depois de abrir 566 mil novas vagas até setembro, o setor fechou 90 mil postos de trabalho no último trimestre. Em 2013, nos últimos três meses, não houve demissões líquidas no setor.

Silvio Sales, pesquisador e coordenador da Sondagem de Serviços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), espera que a desaceleração do setor se mantenha em 2015. A combinação de inflação alta, endividamento das famílias e menor criação de vagas vai reduzir a demanda por uma série de serviços, diz ele, que também espera um ritmo menos intenso de reajustes de preços nesse segmento. “Talvez eles parem de subir tão acima dos demais preços”, pondera.

A Sondagem de Serviços da FGV, diz ele, vêm mostrando uma intenção menor de contratação e uma piora na percepção dos negócios. O índice de confiança caiu 2% entre dezembro de 2014 e janeiro de 2015 e chegou ao menor nível da série histórica, iniciada em junho de 2008. A proporção de empresas de serviços esperando melhora da situação dos negócios passou de 34,1% para 30,8% do total e a parcela das que esperam piora aumentou de 8,9% para 14,1%.

Nos últimos anos, o setor de serviços segurou o PIB, enquanto a indústria recuava. Os dados de 2014 mostram que a ajuda já foi menos expressiva e colaborou para o PIB fraco do ano passado. A receita nominal do conjunto do setor cresceu 6% no ano passado, abaixo dos 8,5% de 2013. Além da desaceleração, a composição também continua ruim. Além da forte perda de ritmo dos setores que atendem as famílias e de outros segmentos intensivos em mão de obra (que também ajudaram a segurar o emprego nos últimos anos), a pesquisa reforça uma tendência que já aparecia no PIB: menor ritmo dos segmentos intensivos em conhecimento, que agregam valor e incentivam a produtividade.

A pesquisa mostra que os serviços de informação e comunicação registraram alta de apenas 3,4% em 2014 (bem abaixo do resultado de 6,9% de 2013), enquanto os serviços técnico-profissionais (intensivos em conhecimento) aumentaram 6,5% (acima de 2013, mas abaixo dos intensivos em mão de obra).

O setor de serviços representa hoje 70% de toda riqueza produzida anualmente no país, mas dentro do segmento as atividades de tecnologia da informação perderam espaço, passando de quase 5% do PIB em 2010 para 3,5% em 2014. Ou seja, segmentos com mais potencial para agregar valor à produção industrial ou permitir ganhos de produtividade no conjunto da economia encolheram. Sales, do Ibre, lembra que esse resultado também reflete a mudança no setor de comunicações, onde a inflação está bem inferior a de outros serviços.

Em toda a pesquisa, pontua Sales, os últimos trimestres foram mais fracos que os primeiros trimestres de 2014 e o ano de 2013, sugerindo mesmo uma desaceleração espalhada da atividade nesse segmento e mais intensa nos últimos meses, o que compromete mais o início deste ano. E como a pesquisa só considera empresas de serviços com mais de 20 empregados, lembra Sales, ela não reflete a realidade para as microempresas, que pode ser ainda mais difícil.

No conjunto, a pesquisa mostrou um aumento de 8,7% na receita de serviços no primeiro semestre em relação a igual período do ano passado, ritmo que caiu para 4,7% no segundo semestre, o que influencia ainda mais negativamente esse início de 2015. E nesse recuo, aparece também uma forte contração na demanda das famílias, cujo crescimento passou de 12% no primeiro semestre para 7% no segundo semestre. Os serviços de TI, de comunicação e administrativos ligados ao conhecimento também desaceleraram, mas a queda na demanda das famílias indica que além do recuo nas atividades que agregam valor, também aquelas que ajudaram a segurar o nível de emprego encerraram o ano mais fracas.

E, se as indicações na análise dos serviços que atendem as famílias são ruins, aqueles serviços que atendem empresas e negócios são piores ainda.

“São serviços que têm a ver com investimento, e nenhum deles ganhou da inflação. Então, pelo lado dos investimentos, a indicação é de um 2014 muito ruim”, explica Fábio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC).

O segmento que inclui transportes e armazenagem registrou alta de 6,4%; serviços profissionais e administrativos cresceram 6,4% e aqueles ligados a informação e comunicação avançaram apenas 3,4%. Todos eles, se deflacionados, encerraram o ano apontando para queda real.

Fonte: Denise Neumann, Valor Econômico, colaborou Juliana Elias, 23/02/2015 – 05:00

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